EDI Story2 Land

Trigger warning: violência sexual e de gênero, estupro, pensamentos suicidas.

Uma coisa que eu amo sobre trabalhar no British Council é a importância que damos às questões de gênero e às mudanças que buscamos fazer no mundo.

Nos nossos programas, estamos nos esforçando para sermos mais sensíveis ou transformadores na questão de gênero. Temos medidas e políticas de safeguarding (salvaguarda) incríveis para ajudar a proteger e apoiar todos que tenham contato com o nosso trabalho. Conduzimos pesquisas importantes e buscamos ativamente influenciar políticas do mundo inteiro para que beneficiem meninas e mulheres. Tudo isso e muito mais. 

No entanto, internamente, especialmente em termos de violência sexual e de gênero, sinto que o discurso acaba se enfraquecendo um pouco.

É como se as mulheres de nossa organização fossem imunes à probabilidade estatística de que 1 em cada 3 sofrerão violência sexual e de gênero em suas vidas (ONU Mulheres, 2020). Como se a imagem que fazemos de uma  “vítima” não combinasse com a colega sentada à nossa frente. Como se fosse algo que acontecesse com “outras” mulheres, e não conosco.

Mas acontece com a gente, sim.

Esta é a minha história. 

***

Fui estuprada há alguns anos e, durante os 18-24 meses que se seguiram, lutei para aceitar o que havia acontecido comigo e achei difícil pedir ajuda.

Nossa falta de diálogo interno sobre violência sexual e de gênero não ajudou, e eu, muitas vezes, interpretei isso como sendo algo “isso não deveria ter acontecido com você. Isso só acontece com os outros.” 

Alguns meses depois do meu estupro, por exemplo, fiz um treinamento de “Adults at Risk and Safeguarding”(Adultos em Risco e Salvaguardas, em tradução livre), e não foi sugerido que as questões que estávamos discutindo pudessem afetar diretamente as pessoas na sala ou onde poderíamos buscar apoio.

Eu também fiz o treinamento de “Gender Mainstreaming” (Integrando Gênero a Projetos, em tradução livre), e, embora várias questões de gênero tivessem sido discutidas e nós pudemos compartilhar algumas de nossas experiências, novamente, o contexto era olhar para as mulheres e meninas no mundo, e não tanto para aquelas sentadas dentro do sala. 

Minha gerência, a diretoria e o RH tiveram muita empatia quando conversei com eles, e disseram que eu poderia pedir o que eu precisasse. No entanto, não existe uma orientação específica para gestores ou sobreviventes sobre o que esperar ao continuar trabalhando após passar por um evento traumático. Senti que o fardo de articular e solicitar apoio estava apenas nos meus ombros, em um momento em que, honestamente, tudo o que eu queria era um “Guia do Sobrevivente para Sobreviver” com um passo a passo e uma lista definida de opções disponíveis para mim.

Talvez ajude se eu explicar um pouco como me senti na época...

Logo depois do meu estupro, eu lembro que estava sentada no escritório, sentindo como se alguém fosse descobrir minha constrangedora verdade só de olhar pra mim. Como se meus constantes pensamentos invasivos pudessem ser ouvidos por todos. Como se o peso daquilo tudo fosse visível.

É claro que ninguém descobriu nada.

A realidade era que eu estava fazendo tudo que podia para parecer bem, esconder, esquecer, engolir o ocorrido, trabalhar e evitar que o mundo desmoronasse à minha volta.

A realidade era que eu estava fazendo tudo o que estava ao meu alcance para me manter manter firme, esconder, esquecer, engolir o ocorrido, trabalhar e evitar que o mundo todo desmoronasse à minha volta. 

Por cerca de 18 meses, meu principal mecanismo de sobrevivência foi tentar ser a Jessica que eu era antes do ocorrido.

Eu me esforcei ao máximo no trabalho para ocupar todas as horas possíveis e evitar os pensamentos e flashbacks que me atormentavam todos os dias. 

Após as primeiras semanas, parei de ir à terapia – em parte porque eu realmente tinha me enganado de que estava bem, e em parte porque, quando fui obrigada a enfrentar a dura verdade, percebi que minha máscara precariamente construída da “velha Jessica” se desintegraria e eu não teria tempo para montá-la novamente, acordar no dia seguinte e ir trabalhar e ser produtiva.

Eu não conseguia admitir para mim mesma que eu não estava bem, então não havia como articular isso para o RH, a gerência ou a diretoria. Mais doloroso do que admitir que eu não estava bem, era admitir que a velha Jessica não existia mais, e que eu teria que aprender a aceitar essa nova versão de mim mesma – que eu odiava.

A Jessica que tinha zero autoconfiança. A Jessica em quem eu mesma não confiava. A Jessica que se sentia sobrecarregada por qualquer coisa.

Finalmente, 18 meses depois do estupro, quando eu já estava com a saúde mental bem ruim e muito perto de largar meu emprego (e não tão longe de querer largar a vida), com um grande empurrão da minha namorada, procurei a terapia novamente. 

Pouco tempo depois, descobri que precisava de uma licença prolongada do trabalho, mas precisei de mais três sessões de terapia para tomar a coragem de pedi-la para minha gerência. Eu me senti ridícula por ainda não ter me recuperado e tinha medo de parecer fraca ou preguiçosa. Ou e se eu tirasse a folga e ainda me sentisse mal? Será que esperavam que eu voltaria “consertada? Fiquei preocupada novamente de que os meus colegas fossem descobrir o que tinha acontecido e o motivo pelo qual eu tiraria um mês de licença. Pensei que eles também iam me achar patética por não conseguir superar tudo logo (reconheço que isso era uma projeção do meu diálogo interno).

Mais uma vez, eu tive muita sorte de ter a compreensão da gerência e da diretoria e, algumas semanas depois de pedir, tirei um mês de licença. 

Foi somente naquele espaço que finalmente fui capaz de desfazer alguns dos nós mais difíceis e começar minha jornada de recuperação. É óbvio que não me curei naquele mês, como um passe de mágica, mas eu consegui viver o luto pela antiga Jessica e começar a aceitar deixá-la ir. Eu me perdoei e comecei a amar e abrir espaço para quem eu tinha me tornado por causa do trauma.

Uma Jessica mais compassiva do que antes, especialmente consigo mesma. Uma Jessica mais motivada a fazer a diferença no mundo. Uma Jessica em quem se pode confiar e que pode superar qualquer coisa. 

***

Eu reconheço, de verdade, que precisava assumir o controle do meu processo de recuperação.

O British Council não é responsável por eu não ter procurado terapia mais cedo ou por não pedir uma folga mais cedo.

Também reconheço que minha experiência é individual e moldada tanto por meus privilégios (ser branca e ter recursos para fazer terapia) quanto por minhas identidades que se cruzam (uma mulher queer e neurodivergente). Talvez minha experiência seja completamente única, embora eu tema que provavelmente não seja.

No entanto, acredito que, enquanto falarmos de violência sexual e de gênero como algo de fora da organização, esperando que sobreviventes peçam o que precisem, sem uma estrutura em vigor, sem um espaço seguro para apoiá-los, corremos o risco de causar mais angústia a esses indivíduos e aos gerentes, que ficam sem saber como apoiar. Arriscamos cultivar uma cultura interna de silêncio, onde os sobreviventes têm vergonha de dar um passo à frente e dizer “eu também”.

Autoria: Jessica Swann.